Gastronomia impulsiona consumo do pinhão e valoriza tradições do Sul do Brasil

Foto: Zig Koch/Embrapa

O pinhão,  a semente da araucária, é alimento tradicional em festas juninas, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país. Mas o produto tem ganhado destaque também em eventos e roteiros turísticos como parte de experiências gastronômicas durante todo o seu ciclo de produção, que começa em maio e vai até o mês de julho.

Trilhas em meio às araucárias para colheita de pinhões, oficinas culinárias e festivais gastronômicos acontecem em várias cidades do Paraná, o maior produtor do país, com o objetivo de agregar valor à semente. Para quem mora nos municípios de Pinhão, Inácio Martins e Turvo, os maiores produtores paranaenses, há até a opção de preparar o pinhão em meio às araucárias, uma prática conhecida como “sapecada”, transmitida entre as gerações.

O ritual consiste no preparo do pinhão no fogo feito a partir dos galhos secos do próprio pinheiro, conta José Augusto Zanchetta, fundador e membro da diretoria da Associação dos Produtores Rurais, Artesãos e Empreendedores de Turismo da Campina do Taquaral e Região (Acamp). O resultado é  um pinhão com a casca tostada e o interior macio, e sabor único, diz ele.

Além desse consumo mais tradicional, o pinhão também pode ser ingrediente de diversos pratos, como lasanha, carneiro, costela, bolinho de rabada,  sopa, bolachas e até sorvete. No preparo com carnes, o pinhão costuma ser inserido cozido, inteiro ou em lascas, em receitas que levam molhos, como carne de panela e ensopados, ou triturado para recheios e croquetes.

Essas versões mais inusitadas poderão ser apreciadas durante o Festival do Pinhão da Rota das Colônias, em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. O evento, promovido pela Acamp, está na sexta edição e deve reunir em torno de 20 empreendedores do setor gastronômico e de turismo rural da região.

Também há  aumento do uso pinhão por chefs e pesquisadores que buscam resgatar ingredientes regionais brasileiros. “O pinhão não é apenas um ingrediente, ele representa cultura, sustentabilidade, inovação gastronômica e desenvolvimento regional”, diz a nutricionista e chef de cozinha Fátima Negre, de Curitiba.

Ela destaca ainda o potencial de uso do pinhão, espécie florestal nativa do Brasil, por ser um alimento sem glúten, com qualidades nutricionais e versátil: “Pode ser utilizado em preparações doces e salgadas, de receitas tradicionais a pratos sofisticados”, elenca.

Segundo  Negre, hoje existe um movimento crescente para resgatar ingredientes regionais, “e o pinhão ocupa um lugar importante nesse cenário gastronômico”. Para ela, que dá cursos e é autora de livro de receitas com pinhão, as opções que aliam a aplicação culinária da semente ao turismo fortalecem a economia local,  criam “experiências autênticas” para os visitantes e geram renda extra “vital” para os produtores rurais.

Diante do potencial do pinhão, a Embrapa Florestas, com sede em Colombo (PR), desenvolve um projeto que prevê a implantação de uma agroindústria para o processamento da semente na região da Terra dos Pinheirais, que inclui 11 municípios no centro-sul paranaense.

A unidade está sendo construída em Inácio Martins, segundo maior produtor de pinhão no Paraná. A cidade colheu 750 toneladas  em 2024, ficando atrás apenas do município de Pinhão, que produziu 880 toneladas. Em todo o Paraná,  a cultura movimentou R$ 25,7 milhões em 2024, com a produção de 4 mil toneladas, conforme dados mais recentes do Departamento de Economia Rural (Deral).

O projeto da Embrapa inclui capacitações em processamento do pinhão e na produção de mudas enxertadas de araucária. A agroindústria irá fabricar, inicialmente, farinha de pinhão, mas o projeto prevê produção de snacks, salgadinhos, e pães e pré-misturas para pães.  

“Hoje sabemos que o pinhão é uma espécie viável e rentável, e o objetivo é promover a geração de renda em toda a cadeia produtiva”, afirma Rossana Catie de Godoy, pesquisadora da área de tecnologia de alimentos da Embrapa Florestas.

A pesquisadora lembra ainda que a araucária exerce papel fundamental no equilíbrio ambiental na região e defende a conservação pelo uso como o melhor caminho.

O coletor Rui Sérgio Czanovski, de Inácio Martins, espera aumentar os ganhos com a agroindústria destinada ao processamento do pinhão. Atualmente, a venda da semente representa em torno de 10% da renda da propriedade, que tem no cultivo da erva-mate a atividade principal.

“Para melhorar o preço que recebo pelo pinhão, tirei o atravessador e vendo direto ao cliente”, conta. Ele vende o quilo do pinhão a R$ 8.

Já Sílvio de Godoy, do mesmo município, vende para terceiros, o que reduz o valor para R$ 6,40. “Espero um melhor rendimento com a agroindústria”, diz.


Fonte: Globo Rural