Filme sobre Elize Matsunaga é criticado por advogado da família: “erros graves”

Divulgação/ Netflix

Caso a Netflix tivesse baseado Elize: Sombra de Uma Mulher nas provas apresentadas contra Elize Matsunaga durante o julgamento, o filme seria bem diferente. Em entrevista ao Metrópoles, o advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, que representou a família Matsunaga na acusação, afirma que a produção altera aspectos importantes do crime e omite elementos usados para sustentar a condenação.

Em conversa com o Metrópoles, o criminalista elogiou a produção, mas foi categórico ao afirmar que o filme comete uma série de “erros graves” ao adaptar a história real e reconstituir o crime que chocou o país em 2012.

“O filme vale como uma obra de ficção, mas, no que diz respeito ao crime em si, comete erros gravíssimos”, afirma Luiz Flávio Borges D’Urso. Segundo o advogado, detalhes fundamentais sobre a forma como o empresário foi morto foram alterados ou deixados de lado em nome de escolhas artísticas da produção.

Vivendo “na pele” o que Elize Matsunaga deve ter passado na época do assassinato de Marcos, Lorena avalia que não cabe a ela, como atriz, julgar por que uma personagem faz ou não certas escolhas e explica que o longa é baseado na percepção do diretor, Felipe Vellas, e dos roteiristas Raphael Montes e Mariana Torres sobre o crime

Apesar de replicar muitas informações do caso, a atriz que interpreta a personagem principal conversou com o Metrópoles sobre como a produção “bebeu na fonte dos fatos” para filtrar e construir os personagens inspirados na história real

Assim como mostra Elize: Sombra de Uma Mulher, Marcos Matsunaga foi atingido na cabeça por um disparo de arma de fogo feito pela esposa. Segundo o advogado, a pistola usada no crime havia sido um presente do próprio empresário. “Ele deu essa arma para ela e ela usava, limpava, treinava com ela.”

De acordo com o criminalista, ao contrário das armas de caça do casal, que eram mantidas em um cofre, essa e outras armas de fogo ficavam espalhadas em pontos estratégicos do apartamento. Para ele, a medida tinha relação com a milionária negociação da venda do grupo Yoki, concluída pouco antes do crime.

É na dinâmica do disparo, porém, que a versão apresentada pelo filme mais se distancia das conclusões da perícia. Na produção, Marcos e Elize estão de pé na sala quando ela atira após ser confrontada pelo marido.

Segundo a reconstituição feita pelas autoridades, no entanto, Marcos estaria agachado no momento do disparo. Como ele era mais alto que Elize, a trajetória descendente da bala indica que a vítima estava em uma posição mais baixa. Além disso, vestígios de pólvora encontrados na região atingida indicaram que o tiro foi efetuado a curta distância, equivalente ao comprimento de um braço.

“Na reconstituição, o que veio ao processo é que ele entra no apartamento com a pizza em uma das mãos e abre a porta com a outra. E ele encontra com ela, com o revólver em punho, em cima dele para disparar. Se não houvesse elemento de surpresa, ele jogaria a pizza em cima dela e entraria em luta corporal. A única reação dele, tendo convicção de que ela iria atirar, foi se encolher”, narra o advogado.

Arma que matou Marcos Matsunaga não está no filme

A autópsia de Marcos Matsunaga revelou que não foi o disparo que matou o empresário. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que Marcos ainda estava vivo e respirando quando Elize começou a cortá-lo na região do pescoço. A causa da morte, segundo os peritos, foi uma asfixia provocada pela aspiração de sangue durante a decapitação, e não apenas o tiro na cabeça.

No julgamento, Elize afirmou que usou uma faca para desmembrar o corpo do marido, assim como retrata o filme. O advogado da família Matsunaga, no entanto, sustenta que uma segunda ferramenta, jamais localizada pela polícia, foi usada no crime.

“No caminho da casa da tia, no Paraná, para o aeroporto, ela passou em uma loja de ferragens e comprou uma serra elétrica. Ela comprou e trouxe para São Paulo na bagagem da babá”, relembra o criminalista. Segundo ele, o equipamento era do mesmo modelo de uma serra usada pelo casal para abrir caixas de vinho, mas nunca foi encontrado pelos investigadores.

Para o advogado, a existência da ferramenta ajuda a explicar a precisão e a rapidez com que o esquartejamento foi realizado. “O esforço do esquartejamento é muito grande. Os peritos disseram que, com uma faca, demoraria horas para ela conseguir segmentar o corpo como ela fez.”

A compra da serra elétrica, que consta no testemunho da babá da família ao tribunal, teria sido uma das provas apresentadas pela acusação para justificar que Elize Matsunaga teria planejado o crime com antecedência, e não agido no calor do momento, como mostra o filme.

“[O crime] foi todo premeditado. Ela viajou para o Paraná para dar liberdade para que os detetives investigassem Marcos e a amante. Ela comprou a serra elétrica. E a perícia nunca encontrou traços de sangue no apartamento, mesmo com o luminol. Como que você esquarteja alguém e não tem sangue? Porque ela colocou plástico, protegeu as paredes. Tudo foi muito bem pensado”, encerra o advogado da família Matsunaga.

Família de Marcos nunca recorreu da sentença

Elize Matsunaga foi condenada em 2016 a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão, após um julgamento de dez dias no Tribunal do Júri — um dos mais longos da história da Justiça de São Paulo. Posteriormente, a pena foi reduzida para 16 anos após recurso apresentado pela defesa.

O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso afirma que a família de Marcos Matsunaga nunca recorreu da sentença. Segundo ele, os parentes consideraram que a condenação atendeu ao que esperavam da Justiça.

“A família queria justiça e a Justiça se manifestou dessa forma. Mas onde que está o ponto final disso? Filmes foram feitos, documentários foram feitos e [a memória do crime] vai ficar”, conclui.

Fonte: Metrópoles