A manutenção da inadimplência da agricultura familiar em níveis considerados baixos mesmo com o avanço do endividamento rural no país permitiu ao Ministério do Desenvolvimento Agrário ampliar os limites de crédito de várias linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para o Plano Safra 2026/27, que entrou em vigor ontem.
Com a regularização dos débitos de mais de 530 mil agricultores familiares pelo Desenrola Rural desde 2025 e a expansão do teto de financiamento em linhas estratégicas do Pronaf, a perspectiva da ministra Fernanda Machiaveli é ampliar o número de operações contratadas, que bateu recorde de 2 milhões no ciclo 2025/26.
“As taxas de inadimplência da agricultura familiar se mantiveram estáveis ao longo dos anos, inferiores a 2%, o próprio Banco do Brasil reconhece isso. O problema [do endividamento] não é a agricultura familiar. Mesmo com dificuldades, quando tem atraso de pagamento, os agricultores familiares se esforçam muito para honrar as suas dívidas, porque precisam da pontuação dos bancos para continuar na atividade”, disse a ministra em entrevista ontem.
Segundo ela, a confiança do governo e do sistema financeiro no perfil de bom pagador dos agricultores familiares tem permitido a expansão dos limites nas linhas de financiamento. Machiaveli disse ainda que a conversa com o Ministério da Fazenda para manter o processo de ampliação dos montantes destinados para a agricultura familiar foi “tranquila”. “O debate maior foi a taxa de juros”, acrescentou.
A expansão dos limites mirou, especialmente, linhas específicas destinadas a públicos que precisam de mais apoio para a estruturação positiva, explicou. Houve ampliação dos tetos financiáveis em programas destinados a custeio e investimentos de assentados da reforma agrária, para o microcrédito produtivo, para construção e reformas de moradias, para bioeconomia, para acesso por mulheres e jovens, para agroecologia, para agricultores do semiárido e para a agroindustrialização.
Os limites para as linhas de custeio em geral do Pronaf, no entanto, não foram alterados. Desde 2016, o teto permanece em R$ 250 mil nas quatro faixas, com juros que variam de 1% a 7,5% ao ano.
Machiaveli disse que a expectativa é de que o crédito chegue a mais pessoas no ciclo 2026/27. O número de operações cresceu 53% desde 2021/22, quando foram feitos 1,3 milhão de contratos.
Para ela, a regularização de dívidas por meio do Desenrola Rural, lançado em fevereiro de 2025, vai ajudar nessa expansão. Até maio, mais de 530 mil agricultores familiares haviam renegociado e regularizado cerca de R$ 24,8 bilhões em débitos, dos quais 70% eram inferiores a R$ 10 mil. O programa segue aberto até 20 de dezembro.
“Conseguimos enfrentar a questão do endividamento já em 2025, nos preparando para esse Plano Safra 2026/27. Conseguimos, com pouco esforço, reincluir esses produtores no acesso ao crédito rural”, avaliou Machiaveli.
A ministra afirmou que a inclusão de novos produtores e a diversificação de perfis de pessoas que podem acessar o Pronaf têm permitido expandir significativamente a base da agricultura familiar assistida pelo crédito rural oficial. Como consequência, o montante total acessado pelos agricultores familiares ultrapassou R$ 62,8 bilhões na safra 2025/26, segundo dados parciais, e o ticket médio das operações têm aumentado. “Isso deve se repetir agora [2026/27], que temos mais recurso disponibilizado e menos agricultores em situação de inadimplência”, afirmou.
Fonte: Globo Rural
Karoline
Foto: Wenderson Araújo/CNA

0 Comentários